O delineamento experimental fundamenta-se na integração de ciência de dados com a estruturação de uma rede de monitorização hidrológica híbrida e descentralizada na Serra do Japi. A metodologia divide-se em duas macroetapas: (i) mineração e processamento geoespacial de dados secundários e (ii) definição da arquitetura de hardware e telemetria baseada em IoT.

Mineração de Dados e Processamento Geoespacial

A etapa inicial consistiu na identificação do universo de utilizadores e na quantificação da pressão exercida sobre o aquífero. Os dados foram obtidos através do portal do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), via sistema SP Águas.

A base de dados consolidada foi submetida a um rigoroso processamento geoespacial utilizando o software QGIS e algoritmos em linguagem Python, focados em duas rotinas principais:

Recorte Espacial (Clipping)

Isolamento das outorgas situadas dentro ou na zona de amortecimento (buffer de 1,1 km) da APA da Serra do Japi.

GeoPandas QGIS EPSG:31983

Agregação Volumétrica

Cruzamento do volume anual outorgado (m³/ano) com a tipologia de uso (industrial, abastecimento, doméstico) e o regime de operação (sazonal/não sazonal).

Python Pandas NumPy

Cálculo do Consumo Anual

O consumo anual de cada outorga foi calculado somando o produto Horas × Vazão (m³/h) para cada mês do ano:

Consumo Anual = Σ (Horas_mês × Vazão_mês) para os 12 meses. Os valores foram validados contra a coluna Volume Anual (m³) do dataset original, com diferença máxima de 0,00 m³.

Higienização dos Dados

Durante a estruturação do banco de dados, realizou-se a higienização de inconsistências cadastrais evidentes na base pública do DAEE. Foram identificados e excluídos outliers tipográficos — registros que apresentavam volumes da ordem de bilhões de metros cúbicos atribuídos a usos domésticos —, resultantes de erros de digitação na unidade de medida. A remoção criteriosa dessas anomalias garantiu a fidelidade estatística da amostra.

Pipeline de Processamento

01
Extração
Dados brutos do DAEE/SP via sistema SP Águas
02
Filtragem
Seleção de outorgas vigentes em Jundiaí (597 registros)
03
Geocodificação
Conversão de coordenadas para EPSG:31983 (SIRGAS 2000)
04
Recorte Espacial
Clip pela Serra do Japi + buffer de 1,1 km (114 pontos)
05
Análise
Ranking, agregação e visualização dos dados

Rede de Monitorização Híbrida

Para mitigar o elevado custo de implantação das redes tradicionais, a arquitetura proposta divide-se em dois componentes complementares, garantindo rigor normativo e escalabilidade:

Componente I: Poços de Monitorização de Referência

Atua como a linha de base (baseline) do projeto. Prevê a perfuração e instrumentação de um número reduzido de poços tubulares dedicados exclusivamente à monitorização do nível estático e qualidade da água. A construção segue rigorosamente as diretrizes da ABNT NBR 13.895, garantindo a instalação de pré-filtros e selos sanitários adequados. Os dados destes pontos calibram a malha de sensores de baixo custo e permitem aferições manuais (fita-sonda), conforme a ABNT NBR 15.492.

Componente II: Rede Colaborativa de Baixo Custo (IoT)

O coração da proposta tecnológica reside na adaptação de poços produtivos pré-existentes (públicos e privados). Tecnologias distintas são aplicadas conforme a hidrogeologia da captação:

Poços Tubulares — Aquífero Fraturado

Instalação de transdutores de pressão submersíveis (dataloggers tipo vented). Registam a variação da coluna de água com compensação barométrica automática, ideais para monitorar a severidade dos cones de rebaixamento industriais.

Datalogger Pressão Submersível

Poços Escavados — Aquífero Poroso Livre

Utilização de sensores de nível ultrassônicos ou LiDAR (Time-of-Flight) sem contato. Instalados na proteção superficial do poço, eliminam riscos de contaminação cruzada e são ideais para envolver a comunidade local (ciência cidadã).

Ultrassônico LiDAR Sem contato

Topologia de Transmissão — Protocolo LoRaWAN

Para superar as limitações orográficas impostas pelo relevo acidentado da Serra do Japi — que inviabiliza o uso de redes celulares convencionais (GPRS/4G) em diversas cotas de altitude —, o projeto adota o protocolo de comunicação LoRaWAN (Long Range Wide Area Network).

A rede opera numa topologia estrela (star-of-stars):

End-Nodes (Nós Sensores)

Microcontroladores de baixo consumo energético acoplados aos sensores nos poços. Programados para despertar periodicamente, realizar a leitura piezométrica e transmiti-la via radiofrequência (915 MHz).

ESP32 915 MHz Baixo consumo

Gateways (Concentradores)

Antenas posicionadas estrategicamente nas cotas altimétricas mais elevadas da APA. Recebem os pacotes de dados de dezenas de poços num raio de vários quilômetros e realizam o backhaul (via satélite ou link dedicado) para um servidor em nuvem.

Gateway LoRa Backhaul Nuvem

A integração desta arquitetura em nuvem permite a correlação automatizada das flutuações do lençol freático com o volume outorgado e as variáveis climáticas regionais, possibilitando alertas precoces e gestão baseada em dados.

Ferramentas e Tecnologias Utilizadas

Processamento de Dados

Python 3.13, Pandas, GeoPandas, NumPy, Matplotlib

Geoprocessamento

QGIS, Shapely, CRS EPSG:31983 / EPSG:4326

Visualização Web

Leaflet.js, HTML5, CSS3, JavaScript

Fonte de Dados

DAEE/SP — Sistema SP Águas, shapefiles IBGE